A saúde digestiva e a saúde mental estão estreitamente ligadas, mas muitas vezes são tratadas como questões separadas. A relação entre os transtornos alimentares e as condições digestivas ilustra por que é necessária uma visão mais ampla da pessoa.

Os transtornos alimentares podem causar ou intensificar sintomas digestivos, enquanto dificuldades digestivas persistentes podem contribuir para uma relação problemática com a comida. Isso não significa que uma condição digestiva seja necessariamente a causa de um transtorno alimentar. Os transtornos alimentares são multifatoriais e podem envolver fatores biológicos, psicológicos e sociais, incluindo predisposição genética, adolescência, experiências traumáticas, grandes mudanças na vida, dietas e pressão estética.

Pessoas que apresentam regularmente inchaço, dor abdominal, náusea ou saciedade precoce podem mudar seus hábitos alimentares na tentativa de controlar esses sintomas. Elas podem eliminar alimentos, reduzir porções, pular refeições ou seguir regras cada vez mais rígidas. Em indivíduos vulneráveis, essas estratégias podem contribuir para comportamentos alimentares problemáticos ou ajudar a desencadear um transtorno alimentar.

A dieta com baixo teor de FODMAP ilustra os possíveis riscos da restrição prolongada. Ela pode ser útil para tratar determinados sintomas digestivos quando utilizada temporariamente, seguida da reintrodução individualizada dos alimentos. No entanto, se for mantida por meses ou anos, a lista de alimentos considerados seguros pode gradualmente diminuir, deixando a pessoa com uma dieta cada vez mais limitada.

Nesses casos, o medo por trás da restrição não está necessariamente relacionado ao ganho de peso. Pode ser, em vez disso, o medo de dor abdominal, inchaço, gases ou outros sintomas após comer. Embora o objetivo inicial seja reduzir o desconforto digestivo, a comida pode acabar sendo associada a medo constante, antecipação e controle.

Por esse motivo, os tratamentos digestivos devem ser avaliados não apenas pelo fato de melhorarem os sintomas, mas também pela forma como afetam a relação da pessoa com a comida. Listas extensas de alimentos proibidos ou planos difíceis de manter podem reforçar a evitação alimentar e o medo em pessoas vulneráveis, sustentando ou agravando involuntariamente a restrição.

A relação também funciona no sentido oposto. Os transtornos alimentares frequentemente envolvem alterações gastrointestinais. Na anorexia nervosa, a desnutrição e a restrição alimentar podem contribuir para a gastroparesia, que retarda o esvaziamento do estômago e pode causar saciedade precoce, inchaço e dor abdominal. A constipação também é comum e pode estar associada, entre outros fatores, à baixa ingestão de alimentos.

Episódios de compulsão alimentar podem provocar distensão abdominal acentuada, sensação de peso, refluxo e dispepsia. Na bulimia nervosa, o vômito pode favorecer o refluxo e causar esofagite por meio da irritação do revestimento do esôfago. Esses são alguns dos problemas digestivos que podem acompanhar os transtornos alimentares.

A questão principal não é afirmar que os problemas digestivos causam diretamente um transtorno alimentar, mas reconhecer que podem atuar como um gatilho ou contribuir para sua persistência em determinadas pessoas. Abordar a saúde digestiva sem considerar os padrões alimentares, as circunstâncias emocionais e os fatores de risco pode, portanto, levar a um cuidado incompleto ou contraproducente.

É necessária uma abordagem abrangente para evitar aliviar um sintoma enquanto, inadvertidamente, se cria ou intensifica outro. O tratamento digestivo deve levar em conta tanto o corpo quanto a relação psicológica e emocional da pessoa com a comida.

Fontes: El País Ciencia.