O estudo da prisão de Stanford e os experimentos de Stanley Milgram sobre obediência foram contestados por serem enganosos ou fraudulentos. Ainda assim, o interesse do público por ambos persiste: uma série de reality show da Netflix, lançada em outubro, revisitou a simulação prisional de Philip Zimbardo, de 1971, trazendo o estudo novamente para os holofotes.
Parte do apelo duradouro desses estudos talvez venha do impacto das descobertas originais. No auge da psicologia social americana, em meados do século XX, pesquisadores examinaram como grupos e figuras de autoridade poderiam moldar as ações de pessoas comuns. Solomon Asch descobriu que, às vezes, os participantes concordavam com o julgamento claramente incorreto de um grupo sobre o comprimento de linhas. Nos experimentos de Milgram em Yale, voluntários eram instruídos a aplicar choques elétricos cada vez mais intensos em uma pessoa que estava em outra sala. Os choques eram falsos e a pessoa era um ator, mas os participantes não sabiam disso; na versão inicial, 65% chegaram ao nível mais alto quando um homem de jaleco lhes disse para continuar.
Outras pesquisas do período examinaram por que as pessoas poderiam deixar de ajudar em uma emergência. Os psicólogos John Darley e Bibb Latané descobriram que os voluntários tinham menos probabilidade de pedir ajuda quando acreditavam que mais pessoas também poderiam ouvir alguém aparentemente tendo uma convulsão.
O estudo de Zimbardo colocou 24 estudantes do sexo masculino nos papéis de guardas ou prisioneiros em uma prisão simulada em Stanford. A experiência, planejada para durar duas semanas, terminou depois de seis dias, após relatos de que alguns guardas haviam se tornado cruéis e alguns prisioneiros haviam sofrido colapsos.
Os estudos enfrentaram críticas substanciais. Em uma análise dos arquivos de Stanford publicada em 2019, o pesquisador Thibault Le Texier argumentou que a equipe de Zimbardo instruiu os guardas sobre como se comportar, enfraquecendo a ideia de que suas ações surgiram espontaneamente. Alguns prisioneiros disseram mais tarde que haviam exagerado seu sofrimento. Críticos do trabalho de Milgram também argumentaram que os experimentos fabricaram a obediência em vez de descobri-la e que, nas diferentes versões do estudo, mais participantes desobedeceram do que obedeceram.
Alguns desses detalhes foram divulgados pelos próprios pesquisadores. Em seu livro de 2007, “The Lucifer Effect”, Zimbardo atribuiu aos estudantes a ideia original e descreveu seu próprio papel como “superintendente” da prisão, incluindo instruir e treinar os guardas. Milgram publicou resultados de variações de seus experimentos, observando que a obediência caiu acentuadamente em algumas delas, embora essas versões diferissem da configuração original.
Os psicólogos sociais Alex Haslam e Stephen Reicher propuseram que a obediência, por si só, não explica o que aconteceu. Em um estudo prisional televisionado pela BBC em 2002, os guardas não se tornaram cruéis espontaneamente. Os pesquisadores argumentam que os participantes talvez acreditassem no propósito científico do estudo e tivessem escolhido continuar, um processo que chamam de “engajamento como seguidores”. Essa interpretação também recebeu críticas, incluindo alegações de que ignora evidências das sessões originais de Milgram e Zimbardo.
Segundo o artigo, os experimentos continuam influentes porque confrontam o público com uma inquietante questão moral: por que pessoas comuns poderiam escolher fazer mal quando poderiam escolher o contrário? Seus métodos e sua ética talvez não atendam aos padrões atuais, mas a questão ainda sem resposta sobre como as pessoas reagem à autoridade e à pressão continua tornando difícil descartar esses estudos.
Fontes: Folha Ciência.