Uma viagem de trem de alta velocidade e uma visita a uma universidade em Henan deram ao matemático Marcelo Viana uma visão tanto da longa história da China quanto de suas ambições atuais. Em uma coluna, ele reflete sobre o registro arqueológico da província, as universidades do país e uma conversa com estudantes sobre matemática e inteligência artificial.
Viana viajou de Shijiazhuang, capital de Hebei, a Xinxiang, em Henan. A viagem durou 90 minutos. Enquanto estava na plataforma da estação, outro trem de alta velocidade passou pela via adjacente sem reduzir a velocidade. Ele disse que o trem estava a mais de 300 km/h e desapareceu antes que pudesse pegar o celular para gravá-lo.
Henan, com uma população de mais de 100 milhões de habitantes e o Rio Amarelo ao norte, é frequentemente descrita como um berço da civilização chinesa. Há evidências de ocupação humana na região que remontam a 7000 a.C. O sítio arqueológico de Anyang revelou as formas mais antigas conhecidas da escrita chinesa, datadas de entre 1600 e 1000 a.C. Viana observa, porém, que os historiadores geralmente reconhecem a existência de vários centros da antiga civilização chinesa.
Na Universidade Normal de Henan, em Xinxiang, ele viu uma estátua de Mao Zedong com mais de oito metros de altura. O braço erguido e o olhar voltado para o horizonte pareciam apontar para o futuro, levando Viana a se perguntar se Mao poderia ter previsto a complexidade da China atual ou aprovado o resultado da revolução à qual se uniu e que mais tarde passou a dominar.
Viana também fala das mais de 50 universidades “normais” da China, instituições que começaram como escolas de formação de professores e ampliaram sua oferta acadêmica. A Universidade Normal de Hebei, que ele visitou na semana anterior, tem 124 anos e busca fortalecer sua posição em pesquisa em áreas como matemática e inteligência artificial. A maioria dessas universidades é administrada pelas províncias, embora algumas estejam sujeitas a outras formas de supervisão.
Na Escola de Matemática da Universidade Normal de Henan, Viana deu uma palestra sobre matemática e sociedade. Ele discutiu o valor social do conhecimento matemático, sua contribuição para o desenvolvimento nacional e a responsabilidade da academia de compartilhar esse conhecimento e preparar profissionais para aplicá-lo aos problemas da sociedade.
A princípio, ele achou que muitos estudantes estavam prestando mais atenção aos celulares do que à sua apresentação. Depois percebeu que eles usavam os aparelhos para ler uma tradução simultânea para o chinês, pois não tinham certeza de que conseguiriam acompanhar sua fala em inglês. Após a palestra, os estudantes fizeram muitas perguntas, inclusive sobre inteligência artificial e seus efeitos na área. Viana também se surpreendeu com o fato de a maioria das perguntas ter sido feita por mulheres, em contraste com a participação que, segundo ele, costuma observar entre estudantes no Brasil.
Durante a visita, seus colegas também o levaram ao Templo Shaolin, um centro budista de artes marciais fundado em 495. Viana relacionou a visita à série de televisão “Kung Fu”, que recordou ter sido um grande sucesso durante sua juventude.
Fontes: Folha Ciência.